Rebuilding: mesmo se tudo der certo, vai demorar

Caro amigo torcedor do Chicago Bulls, recentemente li um artigo no The Athletic, escrito pelo jornalista Stephen Noh, sobre o tempo que um time leva para voltar aos playoffs após se decidir pelo Rebuilding. Em resumo, entre casos de sucesso (um a dois anos) e fracasso (sete a quinze longos anos), a média de retorno à relevância para aqueles times que apertaram o reset button como o Bulls fez neste verão é de 3,25 anos. Como uma franquia do porte do Bulls não pode se permitir apenas querer uma vaguinha nos playoffs, até porque isso já tínhamos, e baseado na experiência recente que tivemos com o rebuilding pós-Jordan, no cenário mais otimista passaremos os próximos três a quatro anos sofrendo até voltarmos à relevância.

Times que entram em rebuilding, que desmontam elencos e apostam no desenvolvimento de jovens, não atraem os grandes free agents, as estrelas, mesmo que tenham tradição e estejam em grandes mercados. Foi assim com o Chicago Bulls pós-Jordan e está sendo assim no Los Angeles Lakers pós-Kobe. Neste sentido, é preciso confiar no processo e fazer do jeito mais lento: tank & draft – fazer campanhas ruins, selecionar bons valores em drafts sucessivos, estocar jovens talentos e deixá-los se desenvolverem enquanto o time coleciona derrotas, para buscar a sorte grande e conseguir assegurar um Game Changer num destes drafts, aquele jogador “cereja do bolo”, capaz de carregar o grupo de jovens talentosos, recheado com um ou outro veterano, a outro patamar. Foi exatamente isso que aconteceu com o Bulls que chegou às finais da Conferência Leste na temporada 2010-2011. Mas não se anime: este processo demorou 13 longos anos, conforme veremos a partir de agora.

Após o 2º tricampeonato (96, 97 e 98), e a decisão de Jordan em se aposentar novamente – desta vez para nunca mais voltar a jogar pelo Bulls – a franquia resolveu apertar o reset button e reconstruir o elenco. Negociou os veteranos Scottie Pippen (1999) e Toni Kukoc (2000) e apostou alto no draft: com a 1ª e 16º escolhas de 1999 trouxe Elton Brand e Ron Artest, respectivamente power forward de Duke e small forward da St. John’s, que viriam a fazer longas carreiras de sucesso na NBA, mas não em Chicago.

A negociação de Kukoc rendeu ao Bulls a pick do Golden State no draft de 2000, e com a 4ª e 7ª posições o Bulls selecionou Marcus Fizer de Iowa State e Chris Mihm, de Texas. Fizer era um undersized power forward que o Bulls tentou encaixar como small forward por ter Elton Brand. Ele nunca funcionou no Bulls e nem na NBA, onde durou apenas seis temporadas. Já Mihm foi trocado com os Cavaliers pela 8º escolha do draft, Jamal Crawford, que foi chamado de point guard of the future pela diretoria. Ele viria a ser eleito por três vezes como melhor 6º homem da NBA em sua longa carreira, mas não passou de quatro temporadas no Bulls.

Em 2001, provavelmente inspirados no sucesso dos twins towers Tim Duncan/David Robinson, o Bulls resolve trocar o certo pelo potencial. Mandou Elton Brand, um jogador capaz de entregar médias de 20 pontos e 10 rebotes por jogo, mas que não era visto como um franchise player, para os Clippers em troca da 2ª escolha no draft, o high schooler Tyson Chandler. Com a sua própria escolha (4ª posição), o time seleciona outro high schooler em Eddy Curry. A aposta era que estes dois jovens seven-footers carregassem a franquia rumo às finais em alguns anos, assim como o duo Duncan/Robinson fez com o San Antonio Spurs. A experiência não funcionou. Nenhum dos dois jamais alcançou o patamar que se esperava deles, e enquanto Chandler tem sido titular por onde passou, Curry sofreu com problemas de coração, foi trocado com o Knicks em 2005, e não teve carreira tão longa na NBA.

Para construir um time campeão é preciso, além de competência, sorte. Isso também faltou ao Bulls em 2003, quando um estúpido acidente de moto encerrou a carreira da 2ª seleção do draft de 2002, o point guard Jay Willians. Ex-Duke, ele não havia feito uma temporada de rookie brilhante, mas era visto pela diretoria como o novo point guard of the future.

Apenas a partir do draft de 2003, o Bulls começou a construir um lastro de talentos que viriam a reconduzir a franquia à relevância, da volta aos playoffs na temporada 2004-2005 até a chegada às finais na temporada 2010-2011. A escolha de Kirk Hinrich como a 7ª seleção não foi brilhante, mas a sequência de boas escolhas a partir daí permitiu à franquia formar um núcleo jovem e competente. Vieram Ben Gordon e Luol Deng, respectivamente 3ª e 7ª escolhas de 2004, também Joakim Noah, 7ª escolha de 2007 e, finalmente, a “cereja do bolo” Derrick Rose como a 1ª escolha de 2008.

Perceba que o Bulls iniciou o rebuilding na temporada 1998-1999, e queimou as primeiras seis temporadas tentando acertar o caminho. Apenas a partir de 2003-2004 a franquia encontrou o sucesso na construção do time via draft, e então foram necessárias mais sete temporadas para chegar às finais da NBA, em 2011. Não é fácil ou simples o caminho da reconstrução via draft. É preciso competência para acertar nas escolhas e montar um núcleo talentoso.

Mais do que competência, é também preciso contar com a sorte. Nem todo draft apresenta jogadores excepcionais, capazes de mudar o rumo de uma franquia. A sorte está em conseguir se posicionar bem em um draft que contemple um Game Changer e conseguir fisgá-lo. Foi assim com o Bulls no draft de 2008, quando com apenas 1,7% de chance no draft lottery conseguiu a 1ª posição e selecionou Derrick Rose, excepcional enquanto teve saúde. Mais jovem MVP da temporada regular da história da NBA com 22 anos, levou o Bulls às finais da Conferência Leste na temporada 2010-2011, apenas o seu 3º ano como profissional, perdendo aquelas finais para o super time do Miami Heat do trio James-Wade-Bosh.

A história do Bulls com o rebuilding mostra que a reconstrução do time via draft é um longo caminho. É preciso ter competência e sorte para conseguir voltar a ser relevante, e mesmo se tudo der certo, vai demorar.

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5 comentários em “Rebuilding: mesmo se tudo der certo, vai demorar

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  1. Não confio neste processo. Isso é mais uma justificativa da sequência de erros do Bulls. Posso dar exemplo de várias equipes que não precisaram desta reformulação para formar grandes equipes. Exemplo mais recente o Spurs, que nos últimos 30 anos deve ter ido para os Playoffs em 90% das vezes e 5 títulos, sempre se mantendo entre os melhores.

    Esse papo é fraco, se mantivesse determinados jogadores como Jimmy Butler, teria maior oportunidade de trazer grandes jogadores nesta temporada e formar uma equipe com grandes chances de vencer o Cleveland, pelo menos.

    Infelizmente, também, nos dias atuais a NBA esta em baixa na qualidade técnica. O que vemos não é uma competitividade de várias equipes e sim monopolizada por poucas devido a juntar grandes estrelas na mesma equipe, isso só demonstra a incompetência técnica de decidir jogos, casos de vários jogadores que são comparados com lendas.

    Assim, se você quer formar uma grande equipe hoje terá que ter pelo menos três estrelas para competir e não uma reformulação. Se for dar exemplo, para esta ideia de reformulação do Bulls, daria o exemplo, do Warrios que desde a década de 70 não tinha um time tão competitivo e teve a sorte de conseguir Curry, Thompsom, Green e formar um time vencedor. Alguém quer esperar o Bulls por 40 anos?

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  2. A construção de um time vencedor via draft pode não ser a mais rápida na maioria dos casos, mas é uma alternativa viável. O caso dos Warriors ilustra bem isso. Saíram de 35% de aproveitamento (apenas 29 vitórias) na temporada 2008-2009 para serem campeões na temporada 2014-2015. O núcleo daquele time foi construído via draft: Stephen Curry (7ª escolha de 2009), Klay Thompson (11ª de 2011) e Draymond Green (35ª de 2012), adicionando alguns veteranos como André Iguodala e André Bogut.

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